Lembro-me de que ele só usava as camisas por dentro da calça, só andava bem arrumado. Era um velho limpo e vaidoso, e eu gostava dele por isso. Eu conhecia alguns velhos que não eram limpos nem vaidosos. Além disso, eram chatos. Meu avô não era chato. Ele não incomodava ninguém. Nem os de casa ele incomodava. Era o típico homem discreto, da conversa boa, pessoa agradável.
Costumava passar parte das férias escolares em sua casa e a razão maior da minha presença lá era ele. Não que a Madrinha não fosse importante, mas eu gostava de sentir o quanto ele ficava satisfeito com minha visita; achava-se enaltecido e tinha consciência de que eu me sentia bem quando estava perto dele.
Ele gostava de almoçar cedo, por volta das 10h da manhã, praticamente um café da manhã - coisas de quem mora no interior dos Inhamuns e acorda com as galinhas - e jantar mais cedo ainda, antes do por do sol. Eu ficava maluca com esses horários. Lembro-me que sentávamos na calçada à noite e ficávamos olhando o céu, as estrelas, enquanto ele contava histórias. Eu amava ouvir suas histórias. Desde pequena eu tinha a maior paciência pra conversar com velhos. Acho que isso deve-se ao fato de que fui criada junto à minha avó paterna. Também lembro que ele ouvia religiosamente A Voz do Brasil, sentado ao lado da mesinha do rádio, sempre muito atento.
Meu avô era uma daquelas pessoas com pouco estudo e muita inteligência. Ele era daquele tempo em que as pessoas eram aprendiam a ler, escrever, contar e durante o resto da vida eram autodidatas. Politizado, bem informado, esclarecido. Gostava de conversar com ele sobre a História do Brasil (sempre gostei de História); falava-me muito sobre os presidentes de sua época. Ele dizia que gostava de mim porque eu era uma das poucas pessoas jovens que gostava de conversar com velhos, a única neta que sentava pra conversar com ele sempre que tinha oportunidade. Eu era pequena mas sabia que ele tinha vivido e sofrido muita coisa. Também tinha feito muita gente sofrer - era mulherengo. Mas esse tema ficará para o final do texto.
Muita gente o procurava para pedir aconselhamento, dicas de como resolver negócios, pessoas pedindo que ele levasse alguém ao médico. Costume antigo de seus tempos de vereador. Era comum estarmos na calçada e chegar algum vizinho aproveitando uma pontinha da calçada para uns dedinhos de prosa. Sua casa era a principal do lugarejo; por lá sempre passava alguém se arranchando.
Lembro também que ele gostav de ler, colocava os óculos, sentava à mesa e lia, mesmo sendo à luz de lamparina. Sonhava com a chegada da luz elétrica, uma de suas reivindicações como vereador. Mas não deu tempo, morreu antes que esse sonho fosse realizado.
Andava com passos firmes, as mãos ligeiramente fechadas; nunca vi alguém andar com as mãos assim, só ele.
Era cuidadoso comigo, ficava perguntando à Madrinha se ela já havia me dado comida, se tinha colocado a rede e os lençóis no sol, por causa da minha asma; afinal, como asmático ele sabia o quanto era ruim um lençol com cheiro de guardado. E quando era dia de voltar? Ele me chamava de madrugada para me arrumar porque o carro já ia passar. Para falar a verdade, essa era a única hora em que eu me arrependia de ter ido.
Quando pintei o cabelo de louro, perguntei se ele gostava mais do meu cabelo louro ou castanho, ele respondeu que era louro e ainda disse mais: "dizem que as loiras são mais felizes, uma loira nunca passa despercebida." Não sei de onde ele tirou essas ideias, coisas do meu avô.
Seu único defeito era ser mulherengo. Mas não era enxerido, sabia fazer um elogio ou dizer uma brincadeira sem ser mal interpretado. Sobre suas inúmeras mulheres ele nunca falava, sempre desconversava quando a gente tentava arrancar algo mais. Dizia que boa parte das histórias eram exagero, que era muito perseguido. Nunca o vi queixar-se de qualquer coisa. Também nunca o vi falar mal de ninguém. Era um senhor muito distinto.
Meu avô tinha a alma jovem, não se assustava com as coisas da modernidade nem censurava ninguém, aceitava bem as mudanças. Mas ficava encabulado quando eu contava uma piada mais cabeluda.
Jamais pensei que fosse sentir tantas saudades dele. Devia ter dito a ele o quanto era orgulhosa por ser sua neta. Mas acho que ele sempre soube disso. Sua morte me marcou demais, talvez por ter acompanhado seu sofrimento e ter passado com ele seus últimos momentos. Lembro sempre dele com aquele sorriso maroto. Acho que ele foi uma pessoa feliz.
Obs: Texto escrito em 05/08/2004.
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